Oficina de Escrita

O que me deixa de bem com o mundo:

As alturas da paisagem que me abraçam...
O ar da noite húmido de ilusões...
A luz e o fogo de alguma humanidade...
A Oficina de Escrita Criativa é um espaço sem fronteiras, sem limites; é um lugar onde eu consegui juntar e unir vários horizontes que se tinham dispersado no meu interior.
Eu amo as palavras escritas. Elas são para mim como as cores, as pinceladas que um pintor oferece ao Mundo numa tela, num quadro. Estão presentes em tudo o que me rodeia, porque no princípio era o Verbo, a palavra, e através dela podemos construir tudo o que desejamos. A Oficina de E.C. deu-me a oportunidade de criar, de conhecer o sabor das palavras, o cheiro, a cor, a luz e o brilho que uma só frase tem. Aprendi nesse lugar, quase mágico, quase irreal, que a escrita é como um rio que não pára, que não transborda, que não inunda - é água que traz sede...
Descobri que podia escapar, fugir pela janela, agarrado a um livro, pendurado numa página qualquer. Não estava preso, não era um preso...

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Começar de Novo e contar Comigo

Começar de novo é algo que para mim resulta ser muito fácil. Já o contar comigo pode por vezes ser algo bastante difícil, porque este corpo vadio, errante revolta-se contra mim, tentando romper e desatar os laços ou raízes que eventualmente brotam e nascem num qualquer lugar que tenha seduzido o meu espírito e mente, convencendo-os a entrar no grupo dos sedentários.
Descobri que posso começar de novo sempre que eu quiser. Não posso obviamente reescrever a minha história pessoal, isso ainda não é possível, apesar de eu acreditar que a vida de todas as pessoas está invariavelmente semeada de infinitos "começares de novo". Penso que o que acontece com a grande maioria é o simples facto de pensarem que "começar de novo" é o mesmo que escrever uma nova história pessoal, onde os acontecimentos que fazem parte do passado são completamente apagados, como se o "começar de novo" viesse com um kit equipado com uma borracha mágica. Mas seja como for, o meu problema é, e sempre foi, o "contar comigo".
Como muito bem dizem os ingleses, "Onde quer que eu pouse o meu chapéu, aí é a minha casa". É o que tenho feito, embora raramente use chapéu... Já comecei de novo uma nova vida, um sonho novo, em muitos lugares, alguns dos quais tão inóspitos que muito dificilmente poderiam sustentar a sobrevivência de qualquer forma de vida.
O que ocorre é que o corpo, esta nau que me leva como passageiro, é extraordinariamente difícil de contentar. Não se deixa subjugar por promessas, nem por votos ou por amores; nem mesmo os tempestuosos ventos do destino conseguem mudar-lhe o rumo. Consegui no entanto, ao longo destes anos em que o tenho habitado, estabelecer uma espécie de pacto, no qual ambos lucramos de algum modo. Por um lado, ele, o corpo, permite-me ficar o tempo suficiente num lugar eleito, para começar algo e ver o germinar dessa nova forma de estar na vida e, por outro lado, eu, o passageiro, aceito a necessidade de sair, de ir, de viajar, que este corpo tem, sem lhe oferecer resistência.
É assim que tenho vivido, transportando comigo um sem número de novos começos, tentando manter o equilíbrio justo e necessário para, mesmo que por pouco tempo, eu possa contar comigo.

Ponto de partida: Começar de novo, José Eduardo Agualusa, pública, Maio 2007 + Começar denovo, Ivan Lins.

domingo, 27 de julho de 2008

Da janela do quarto...


Penso confessar pensamentos a quem os ouve da janela do quarto

para a cama desfeita de nós os dois rebolados no chão

sem tocar o ar que cheira a noite e a estrelas e a luz

a luz do teu corpo do teu olhar a brilhar no desejo

que torna aurora o vermelho escuro dos lábios que dançam sombras

de sons sobre nós de corpos leves quase etéreos quase nada

do nada que se faz todo no vai e vem sussurrado da respiração

que prende os sentidos e os ata à pedra âncora das mãos

e mais, mais, mais, muito mais do que eu quando me tocas e despertas

do doce letargo partes de mim que esqueci abandonadas no fundo

deste saco de pele ardente que dá e te recebe sem código postal

sem endereço possível morada eterna do fogo que arde em ti e em mim

de cima abaixo de trás e de frente de lado de todos os lados

de todas as ondas que impetuosas de prazer se esmagam uma

após outra contra nós deixando-nos maré e praia

até que o caminho de carne suada serpenteia pelo alto

e se faz estreito de espasmos e vibrações e explode

uma e outra vez até à exaustão deixando-nos lá onde estávamos

antes mesmo de chegarmos a ser de mão na mão e olhar

sustentado na respiração que fala sem dizer nada que sim

que foi a primeira de todas as vezes que agora já só nos resta

esperar que de novo seja um de nós a pensar confessar pensamentos

a quem os ouve da janela do quarto para a cama ainda desfeita de nós os dois

E as asas voltaram a crescer...



Perguntava-se se o tempo se perdeu, esquecido

no seu interior, nos becos e covas onde dormes sem sonhar.

Prisioneiro de um feitiço, profecia que gotejou em

mel da boca de uma Mulher... As correntes

romper-se-ão, o abismo encher-se-á com o eco do

grito "Liberdade", e então tocará o infinito, banhar-se-á

na eternidade, colherá o Amor e beberá de um

cálice chamado desejo o que homem algum poderia experimentar.


As asas que o ensinaram a voar

voltaram a crescer, o vento voltará a falar-lhe.

De novo sentirá o seu abraço sustentando-lhe a Alma.

A luz da noite virá nua e brindá-lo-á

com enigmas e mistérios que desvendará ao entrar nela

e acreditará em viver e em existir;

subirá, escalando pelas escarpas do medo, e

lá no mais alto de um corpo de Mulher,

levantará por fim o olhar, estandarte do que

É, e verá mais longe e mais além do impossível.

Só então se irá, partirá sem pintar o silêncio,

levando um quadro como memória, gravado no

gemido de noites de prazer, na ténue luz de

uma vela que lambeu dois seres que se amavam

e misturavam numa coreografia orgásmica,

dança redonda e cálida de mãos que se

perdiam embriagadas ao tocar um Anjo

que é Mulher, Menina, Senhora e Magia e Poder

de ser... Devagar, tão devagar que o tempo

não se conta, será matéria, esculpida com

palavras, e já não será restolho de homem,

não será pasto da carnívora solidão,

porque dentro, no seu interior, nas covas e becos

onde dormia sem sonhar, leva velado um

nome que o faz imortal.

O teu toque... Anjo...

Chamou-a e veio, Anjo é e está.

No cume de uma Montanha, no Abismo

do nada ser, confusão engarrafada

num perfume de Mulher...

11-2-08

Com Maria

“Não se trata de uma pequena aguarela, compreendem? É uma janela aberta sobre a minha infância. De cada vez que olho para ela vejo cenários diferentes. Imagens que o pintor não viu...”

Faíza Hayat, crónicas


Ainda que seja quase impossível descobrir a sensibilidade feminina que deu calor ao carvão desenhado, no primeiro momento em que vi esta “pequena aguarela”, senti que a autora me quis fazer cúmplice dos traços leves e fortes que compõem a melodia calada no azul do céu e da água, como se fora prisioneira do tempo que se faz eterno ao escorrer-se pelo horizonte.

Aceito essa cumplicidade, tomo-a como um desafio, e dentro de mim escuto um silêncio de mãos dadas com um sorriso que corre e salta à medida que olho a “pequena aguarela”, e me abandono, sentado lado a lado com Maria, a autora, enquanto ela vê o que eu não posso ver, e eu olho, espreitando por detrás do que ela não pintou. Posso escutar a água fluindo por debaixo da ponte, acariciando de forma envolvente e redonda as pedras, respiro o ar puro e fresco, que borboleteia com os salgueiros, e Maria, baixinho, pergunta-me se eu consigo escutar a música que está presa no quadro; à espera de quem a possa ouvir.

(Oficina de Escrita Criativa, Fevereiro de 2008)

A que cheira a palavra mais odiada?

GLOBALIZAÇÃO

(O cheiro de um multiplicado por todos)
Seriam braços sem cor, uniformes.
O som sem diferenças de tom.
Se se perdesse à noite, não a deixava voltar para casa.
Se fosse bebida não, é bebida hoje em dia e legalizada.
O quarto dos fundos, no caixote do lixo mais esquecido possível.
Namora a estupidez e a falsidade e é adúltera com a política.
Fugiram para outro planeta, seco, desértico, sem vida, nem cultura, nem vontade própria.
A palavra vê a miséria que vai deixando no seu rasto.
O momento do dia mais importante para esta palavra
é quando o homem se esquece dela...

A formiga

Siga cantando

Já observou a atitude dos pássaros ante as adversidades?
Ficam dias e dias a fazer o seu ninho, recolhendo materiais, às vezes trazidos de locais distantes... E quando ele já está pronto e estão preparados para pôr os ovos, as inclemências do tempo ou a acção do seu humano ou de algum animal destrói o que com tanto esforço se conseguiu...
Acha que ele desiste? De maneira nenhuma. Começa uma outra vez até que no ninho apareçam os primeiros ovos.
Muitas vezes, antes que nasçam os filhotes, um animal, uma criança, uma tormenta volta a destruir o ninho, mas agora com o seu precioso conteúdo...
Dói recomeçar do zero... Mas ainda assim o pássaro jamais emudece, nem retrocede, continua a cantare a construir, a construir e a cantar...

Já sentiu que a sua vida, o seu trabalho, a sua família, os seus amigos não são o que sonhou? Tem vontade de dizer "Basta! Não vale a pena o esforço, isto é demasiado para mim!"?
Está cansado de recomeçar, do desgaste da luta diária, da confiança traída, das metas não alcançadas quando estava a ponto de conseguir?

Mesmo que a vida o golpeie mais uma vez, não se entregue nunca. Faça uma oração, ponha a sua esperança na frente e avance. Não se preocupe se for ferido na batalha, é de esperar que algo do género aconteça. Junte os pedaçõs da sua esperança, assuma-a de novo e volte a ir em frente!
Não importe tudo aquilo por que venha a passar. Não desanime, siga adiante. A vida é um desafio constante, mas vale a pena aceitá-lo. E, sobretudo... NUNCA DEIXE DE CANTAR!

Autor desconhecido
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Observando outro animal...

A FORMIGA


Foi ao entardecer que decidi parar. Estacionei então este corpo de encontro a uma rocha que, por acção e teimosia do Sol, estava morna, como se esta massa amorfa tivesse ganho vida. Olhava o Mundo à minha volta, distraindo o meu olhar com a paleta de cores que vestia toda a natureza, quando a ouvi.
Ao princípio
era uma vozita fraca, como um lamento, aqueles “ais” que se nos escapam quando arreamos do viver as cargas que se vão acumulando. E a vozita foi ganhando mais volume, até chegar a um tom de raiva. Estranho, pensei, quem é que fala assim?.

Guiado pelo som, vi que do outro lado da rocha, quente e viva que me servia de sofá, estava uma formiga, andando em círculos, como se quisesse agarrar-se e ela própria. Deu-me vontade de rir. Pequenita como era, gesticulando ferozmente e soltando um:

- Não posso mais!, girando e girando detrás de si mesma.

Convenhamos que era caso para rir.

Mas não foi o que fiz. Controlando esta faceta tão própria da nossa tão querida e arrogante humanidade, cumprimentei a formiguita:

- Olá, boa tarde – disse-lhe eu.

E ali ficou, de repente imóvel, olhando-me, como se se lhe houvesse acabado a corda de um mecanismo invisível.

- Olá – respondeu-me secamente.

E lá seguiu com o seu bailar à volta do nada.

- Formiguita que gira e gira – pensei – então, perdeste alguma coisa? – perguntei-lhe, tentando fazer com que ela deixasse de andar às voltas, porque a mim, de vê-la, quase me punha tonto.

- Não, não perdi nada... antes fosse... – disse-me ela.

Ela não, que por acaso era um ele. Chamava-se Ricardo, mas, como em português não existe um formigo, Ricardo fica-se formiga, que até está bem. Eu fiquei a saber, após uma longa conversa, que o problema da formiga Ricardo é o mesmo de milhares e milhares delas. Estão fartas de que as vejam como um exemplo! Pobrezinhas, sempre atarefadas, sempre a trabalharem, de noite e de dia, sem pararem, sem férias, nem fins-de-semana, nem dias santos. Não têm nem sindicato nem ninguém que proteja os seus interesses. É verdade, Ricardo está cansado (ou direi cansada?) de ser escravo (ou escrava).

Fevereiro 2008

Num outro lugar

Num outro lugar

um restolho de um homem

que já não é.


Vive uma montagem

grotesca

produto da secura humana.


Nas asas da indiferença

tem assomos de curiosidade

pela comunhão dos outros

pela cumplicidade das gentes

que formam redes.


Formas difusas

quase vestidas de humanidade

giram num carrossel

com o nome de um povo.


Prisão.


Ao longe ouvem-se rumores

deste corpo que já foi vida

e que insistem em tornar

deserto.

(Oficina de Escrita, Fevereiro de 2008)

Cafés

O meu gosto pelos cafés não é tanto pelo que lá posso encontrar para beber ou comer. E muito menos pelo fumo, que me incomoda de sobremaneira. É antes pela capacidade que estes espaços têm para captar personagens diferentes. É um ponto de cruzamento. E os melhores cafés são aqueles que têm misturas, uma grande mistura de cores, cheiros, culturas, idades...

Nuno Artur Silva, Público, 17/02/07

Café em Fez-el-Bali


Rachid tentava convencer Mari, dizendo-lhe que gostaríamos de conhecer aquele café ou casa de chá, dizia ele, que era um sítio único e muito especial, conhecido por pouquíssima gente, muito menos por estrangeiros ou turistas, como era o nosso caso.
Desde que estive em Fez-el-Bali, e passados estes anos, nunca cheguei a entender bem o que realmente era aquele local, que terminou por ficar gravado no meu livro de memórias como uma das experiências mais extraordinárias que tive ao longo da minha vida.

De todo o Al-Maghreb-al-Aqsa, ou o que nós conhecemos por Marrocos, extremo ocidente, Fez é sem dúvida uma das mais belas e míticas cidades, e Bab-Boujeloud, é talvez a porta principal que dá entrada no universo de sentidos e sensações que fervilha no seu interior.



Fez-el-Bali já foi o eixo central sobre o qual girou toda uma civilização, sendo ainda hoje um lugar de fortes raízes culturais e espirituais, onde o mais distraído dos mortais poderá sentir o enaltecer da alma ao ser tocada, suave e quase imperceptivelmente, por essências milenares e realidades que evocam histórias e lendas e que ainda sobrevivem ao passar dos séculos, escondidas no emaranhado de ruas esguias, salpicadas por pequenos soucks.

Em Fez respira-se uma atmosfera de contrastes, onde aromas e odores impossíveis de perceber em outros lugares se misturam com o ruidoso colorido das gentes.

Desta cidade fluem o passado e o presente, destilados como um só em pequenas subtilezas ou através das ancestrais técnicas de trabalho, transmitidas de geração em geração, ainda utilizadas pelos artesãos e artífices, que transformam materiais tão diversos como o gesso, o barro, a madeira, o cobre e aquilo que a par do famoso azul cobalto de Fez-el-Bali, empregue desde há séculos pelos oleiros, torna característico o ar que submerge esta cidade: o cheiro a couro, a pele curtida. Desde o bairro dos curtidores, na parte baixa da cidade, sobe um odor forte, quase nauseabundo, a pele de cabra ou bode, a couro virgem, que trabalhado e tingido em cubas a céu aberto, lembra uma gigantesca paleta de cores de um génio louco.




Foi precisamente este odor acre que fez com que Mari recusasse o convite que Rachid e Fatma nos fizeram, a mim, a ela e a Joanna. Além disso o dia fora algo cansativo, com o vaivém através de ruas e ruelas, visitando palácios seculares. Além de que constatar que algumas destas magníficas construções foram transformadas em restaurantes causara em mim uma profunda tristeza. Salvara-se entretanto do meu pesar a Mesquita Karouine, fabulosa, e o Palácio Real, favorito do falecido Rei Hassam II.

Tudo isto, junto com as inevitáveis e obrigatórias paragens nos soucks e a correspondente compra de souvenirs, tinham contribuído para o aparente mal-estar de Mari.

Enquanto eu, para sua surpresa, me deliciava com a incrível rapidez com que o meu olfacto se tinha adaptado aos odores mais agressivos, permitindo-me desfrutar do ambiente e de cada partícula carregada pela brisa, que me recordaram as páginas de um livro que tinha lido há já muitos anos, uma obra de Achmed Sefrioui, «Chapelet d’Ambre», páginas embebidas de um extraordinário simbolismo místico, absorvido durante a infância vivida pelo autor nesta cidade. Da mesma forma foram projectadas na minha mente imagens fugazes de filmes como «Lawrence da Arábia», «Casa Blanca», «Ali Baba», e do magnífico filme de Nabyl Ayouch, «Mektub». Descobri nesta cidade a que cheiram as palavras escritas e as imagens de um filme.

Pensei inevitavelmente em Paulo Coelho, imaginei que poderia ser um reflexo do seu «Alquimista» e que talvez, se eu procurasse bem, poderia encontrar o pastor que abandonou tudo para perseguir um sonho, algures numa destas ruas.

Talvez por saber que a minha vontade era a de acompanhar Rachid até ao sítio que dizia ele ser tão especial, Mari melhorou subitamente e decidiu vir connosco. Se bem que eu penso que há algo nesta cidade que impele as pessoas a saírem de casa e a procurarem nas suas ruas algum pedaço esquecido de magia, ou simplesmente o feitiço de algum djinn, espírito brincalhão que se diverte enganando os mortais, e que poderá estar escondido, observando, por detrás de um ou outro mucharabi. Em qualquer dos casos, Fez tem essa particularidade invulgar de encantamento, que envolve e se dilui no cântico dos Imãs que, da aurora até ao entardecer, convidam desde o alto dos minaretes à oração, à procura do Deus do Islão, flutuando no sempre presente Ala`u Akbar.

A rua era igual a tantas outras, estreita e escura; pairava no ar um cheiro adocicado a tâmaras, frutos secos e a lenha queimada. Mari, que me unia a ela apenas pelo dedo mindinho entrelaçado ao meu, como dois elos de uma só corrente, olhava a casa que tínhamos diante de nós.

Era alta e velha de muitos anos, com pequenos farrapos de cal pendurados do alto das paredes seculares. Reparei que, ao contrário de outros cafés ou casas de chá, esta não exibia nada no exterior que anunciasse ao transeunte que no seu interior serviam fosse o que fosse. Rachid fez soar a madeira da porta com um seco toque-toque. Funcionou como um estranho «Abre-te, Sésamo», e deparámo-nos com uma mulher que nos convidou a entrar, oferecendo-nos um sorriso seguido de um gesto. Era uma espécie de hall de entrada, estéril, despido de toda a forma possível de mobiliário. A mulher que nos recebeu levou-nos até uma escada que apontava para a parte superior da casa, e sem dizer uma única palavra, desapareceu por detrás de umas cortinas.

Subidos os degraus, esperava-nos um homem de estatura mediana, um pouco obeso, que trajava uma djellaba branca finamente bordada fazendo jogo com o enorme sorriso tecido no rosto e que lhe iluminava a face.

Depois do «Salam Malleku» e «Malleku Salam», Rachid chamou-me com um carinhoso Sahbi (amigo), e apresentou-nos Achmmed-ibn-Aziz, dono do local, conhecido por «El-Kalif» ou «Al-Khaima», local que ficaria gravado para sempre na minha memória. Diante de nós, tínhamos uma sala de enormes dimensões, iluminada parcialmente por quatro ou cinco candeeiros antigos, que me lembravam aqueles a petróleo, bem mais pequenos, que na minha infância me resgatavam, a contra vontade, diga-se, da súbita escuridão que por vezes acompanhava uma potente descarga eléctrica, aviso de um não menos potente e estrondoso trovão, que os fuzíveis do quadro eléctrico não podiam aguentar. A semelhança entre estes candeeiros e os da minha infância era incrível, mas, apesar de grandes, eles não tinham a potência suficiente para dissipar as sombras que mascaravam as paredes.

Depois dos meus olhos se terem adaptado à lúgubre luz, percebi que o que realmente eu estava a ver eram sem dúvida os aposentos reais de algum palácio das “Mil e Uma Noites”.

A inesperada beleza do lugar abateu-se sobre mim com o ímpeto das ondas de um oceano de arte que me chegavam através dos zallidj (pequenos azulejos), do estuque trabalhado de forma tão elaborada que parecia sobrenatural, da madeira ricamente pintada, com motivos semelhantes aos que usam tradicionalmente as mulheres, feitos a hena, nas mãos e nos pés. Das vigas que sustentavam o tecto, baixavam leves, quase etéreas, umas cortinas escuras, com riscas coloridas que me recordaram os mantos hendira, que usam as mulheres da tribo «Ait-Haddidou», do Alto Atlas.

Não havia nenhuma mesa, nem cadeiras, nem balcão, nem máquina de café, nem pontas de cigarros abandonadas em cinzeiros. Nada, absolutamente nada, dentro daquele lugar denunciava que estávamos num bar ou mesmo numa casa de chá.

Achmmed guiou-nos por entre a tímida luz dos candeeiros, até um recanto cujas fronteiras estavam demarcadas pelos véus ou cortinas que baixavam do tecto. Sentámo-nos no que se poderá chamar de almofadas, pequenas e redondas, sumamente confortáveis, que ocupavam aqui e acolá o espaço reservado para aquela que seria uma noite de surpresas e de descobertas inesquecíveis. No interior deste quase místico lugar, não haveria mais que oito ou dez pessoas, que presumi serem turistas que como eu estariam atónitos e desconcertados perante a simplicidade vazia da enorme sala, que realçava brutalmente a extraordinária riqueza da arte expressa na multiplicidade de formas e cores que cobriam as paredes por completo. Pensei que se Mulei Idris el-Azhar o fundador de Fez-el-Bali, e em honra do qual se celebra um Moussem (festa do santo) todos os anos no mês de Setembro, tivesse um lugar secreto e preferido onde estivesse em permanente contacto com a mais pura e sublime essência que une todos os povos e tribos que deram origem a esta maravilhosa cidade, tinha que ser aqui. Era este o lugar secreto. E agora eu estava ali – eu estive lá – onde os Profetas e os velhos sábios descansam, enquanto bebem uma taça de chá verde.

Achmmed interrompeu o deambular extasiado dos meus pensamentos, ao perguntar a Rachid o que desejávamos tomar e se tínhamos preferência por algum tabaco em particular ou se preferíamos provar algum tipo de kiffi. Depois de escolhermos as opções, Achmmed sentou-se connosco, trazendo consigo um berrad (chaleira) contendo chá verde de hortelã, acompanhado por vários tipos de crepes, pão de rala, tâmaras, frutos secos, e uma especialidade do «Kalif» ou «Khaima», um saboroso tajine, guisado de cordeiro com amêndoas, nêsperas e especiarias. Fiquei a saber que a forma como este delicioso manjar é preparado constitui um segredo fielmente guardado por Naimah, esposa de Achmmed, e que é passado de mães para filhas há incontáveis gerações. Eu provei a assida, um creme doce de sêmula, que segundo Rachid era o prato preferido do Profeta Maomé.

Soava no interior do lugar uma música inebriante, onde o oud, alaúde, e o bendir, tambor que é tocado como se fosse um adufe português, acompanhavam uma extraordinária melodia, proveniente de uma flauta que imaginei ser a de Ahmed Bidaoui.

Achmmed explicou-me, quando lhe perguntei o porquê daquela decoração, que o local em si era para ele como uma khaima, uma tenda, possivelmente porque lhe corria sangue nómada nas veias, ou simplesmente porque para Achmmed, não há no Mundo lugar mais confortável que uma khaima.

Explicou-me que os tapetes do chão, são kilims, de origem berbere, verdadeiras obras-primas de desenhos geométricos. De tal forma era a sua beleza que eu pensei ver entre eles o tapete voador de Aladino. Fosse ou não fosse, eu creio que qualquer um daqueles incríveis tapetes poderia levar uma pessoa a voar até mundos e oásis esquecidos.

Fiquei a saber que o próprio Achmmed é descendente dos berberes, se bem que ele prefira o nome que os seus antepassados se deram a si mesmos, os Imazirhen, homens livres. Achmmed diz ser um Amazirh, homem livre, amante de um idioma tão antigo como a própria areia do deserto, o tamazariht.

Para Achmmed, Fez-el-Bali é a Alma de Marrocos, e este lugar, este estranho café, ou khaima, de que ele é proprietário, expressa o sentimento espiritual, artístico e místico do povo de Fez.

Achmmed falou-me dos seus antepassados, das suas histórias e lendas e do vento do deserto, que ainda vem nas noites silenciosas chamar aqueles que ouvem a sua voz, e que mantêm viva no seu interior a chama do Amazirh, pronta a iluminar caminhos, por entre dunas de areia, em direcção a oásis, onde odaliscas esperam, com chá verde quente, frutos secos, tâmaras e mel, tudo aquilo que alimenta o sonho de um homem.

Neste singular café, fiz um Amigo, descobri o cheiro das palavras escritas, voltei a apaixonar-me e depois… depois foi o começo da Magia…….

Oficina de Escrita, 07/03/2008

Acerca de mim

Devo desde já esclarecer que não sou eu o gestor do blogue. Não posso. Não tenho acesso directo à Net. Estou preso há um ano (fez em Junho). Embora fisicamente preso, na minha cabeça, nunca me senti tão livre... Como é que me evado? Através da arte, do desenho, da pintura, da leitura e da escrita. Na pintura, tento encontrar um estilo próprio. Para já, bebo em algumas fontes: Modigliani e Dali, essencialmente. Também tenho um fascínio por Da Vinci, sobretudo enquanto ocultista. Adoro ler sobre exoterismo e filosofia do século XX. Aqui onde me encontro vim encontrar uma Oficina de Escrita, que frequento regularmente todas as semanas. Lá em cima, já disse o que penso desta actividade - um espaço de luz dentro da escuridão do cárcere...

27 de Julho 2008